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COISAS DO CORAÇÃO

Vivendo a vida do Outro

 

 

Tem dias assim: você já acorda chorando. Nem sabe porquê – ou se sabe usa disfarces. Disfarces sempre existem para esconder a dor. A dor do desamor. Por isso, o Outro não percebe. Ou se percebe, disfarça. Desamor tem a ver com farsa. A farsa de uma vida não vivida como você gostaria de viver. Você está sempre correndo atrás do Outro. Você não vive a sua vida porque vive a vida do Outro. Como sente-se abandonado (a), como sente-se desprezado, está sempre com o GPS ligado, rastreando os passos do Outro. Vidas guiadas por controle remoto. Querer conduzir, acompanhar, estar nos mesmos lugares. Desamor combina com ciúme. Aquele ciúme descontrolado, possessivo. Aquele ciúme que surgiu de tanto que o Outro aprontou. Aquele ciúme de quem não tem acesso à vida Dele. Aquele ciúme de quem não é cúmplice. O Outro não lhe dá essa chance. O Outro só quer levar a vida assim usando a todo momento a expressão “relaxa”. Um relaxa que significa: não quero compromisso, sua vida não me interessa, quero apenas um ficar mais prolongado. Não cobre, não nutra esperanças, não espere de mim o que não posso lhe dar.

O mal-amado não tem paz. A imagem do Outro toma conta de você quando coloca a cabeça no travesseiro. Esta é a pior hora, quando o desamor se instala e chega junto com a solidão. Você ainda espera que o Outro ligue na madrugada para dizer boa noite. Ainda espera que ele (ela) mande uma mensagem dizendo que lhe ama. Nada disso acontece. Na cabeceira, o remédio contra o desamor já espera por você. Você toma o comprimido como se fosse para depressão. Mas, na verdade, é para o desamor que você está buscando um paliativo. É, porque não passa assim tão rápido. A dor persiste. Você cura um aranhão num minuto mas a dor do desamor leva você cada vez mais fundo, cada vez mais à lama, à falta de identidade total.

Vander Lee canta tão bem essa dor. “Meu amor… deixa eu chorar até cansar/Me leve pra qualquer lugar/Aonde Deus possa me ouvir/Minha dor…/Eu não consigo compreender… Nas madrugadas frias, sozinho na cama, você escuta Gal Costa cantando baixinho essa música. Por que o Outro não abre o jogo de uma vez e não liberta você do sofrimento? Simples assim: chegar, de uma maneira curta e grossa, e dizer: “Não quero envolvimento amoroso com você. Quero apenas sexo”. Não fossem as cabeças complicadas e seríamos todos felizes. Como se a vida não passasse rapidamente. Um dia nós quase morríamos juntos num acidente de carro. Nem isso fez você enxergar a vida de maneira diferente. Nem isso fez você se tocar do sentimento que nos une. Por que? Porque você insiste em viver e propagar o desamor. Afinal, a gente pensa que só é com a gente que acontece. Mas, não. O desamor não é unilateral.

Por uma fração de segundos, algo como num flash, você quer se livrar de tudo. Deixar para trás tamanho sofrimento e recomeçar. Embalado ainda na música de Vander Lee você sussura e chora: “Sabe o que eu queria agora, meu bem…?/Sair chegar lá fora e encontrar alguém/Que não me dissesse nada/Não me perguntasse nada também/Que me oferecesse um colo ou um ombro/Onde eu desaguasse todo desengano…

extraído de coisas do coração,em 26/07/2013,Sebastião Araújo,DP
Fernando Cunha, SJE 03/10/2013, às 23hs