Se você tem alguma dúvida sobre segurança da informação (antivírus, invasões, cibercrime, roubo de dados etc.) vá até o fim da reportagem e utilize o espaço de comentários ou envie um e-mail para g1seguranca@globomail.com. A coluna responde perguntas deixadas por leitores no pacotão, às quintas-feiras.

 

Switch de RedeAlgumas das prestadoras de serviços de internet do Brasil – Oi, Net/Claro e Vivo/GVT -, estão consolidando a oferta de planos de internet fixa com franquias de dados. É o mesmo tipo de limite que já é conhecido na internet móvel. Nesses planos, programas e recursos de segurança, como antivírus e atualizações, também estão entre as funcionalidades que competem pela preferência do usuário no uso do pacote mensal de dados.

 

A quantidade de dados da franquia varia conforme o plano e com o provedor, mas, como o limite obriga o consumidor a calcular e considerar o que acessa, as empresas têm recebido críticas de internautas, que iniciaram um Movimento Internet Sem Limites. Além disso, o Ministério Público do Distrito Federal está investigando a prática e o Ministério da Justiçapediu explicações.

 

O contrato das operadoras prevê bloqueio ou redução de velocidade após a franquia ser excedida. Ainda assim, a franquia, embora prevista, não está valendo para todos.

 

Embora existam provedores comercializando planos sem franquia, a falta de disponibilidade técnica pode obrigar o consumidor a escolher entre os serviços das operadoras com franquia. Como um dos pilares da segurança é a "disponibilidade", ficar sem internet por causa da franquia também é um "risco", especialmente se o consumo dos dados pode ocorrer acidentalmente. Mas a segurança pode ainda ter impacto no consumo dos dados.

 

Sensor de dados do Windows 10 mostrando consumo mensal de 332,1 GB em um único computador. Consumo, obtido em uma conexão de 50 Mbps, é maior do que a franquia oferecida em conexões mais velozes e aproximadamente o dobro da oferecida para a velocidade. (Foto: Reprodução)

 

O consumo de dados da segurança
O impacto na segurança pode ser bem direto. Quase todos os protocolos de rede ficam mais "pesados" (consomem mais dados) quando se coloca uma camada de segurança e medidas para reduzir o consumo de rede podem deixar o acesso mais inseguro.

 

Os sites seguros da web – os que utilizam o "cadeado" – já tiveram duas brechas diferentes ligadas ao uso da compressão de dados. Os ataques, conhecidos como "Crime" e "Breach", se aproveitam da previsibilidade da compressão de dados para quebrar a proteção do "cadeado" e conseguir espionar o tráfego. Um site pode optar por não utilizar a compressão de dados para aumentar a segurança. Isso, numa internet limitada, vai "custar mais" para o internauta visitante.

 

De acordo com dados do Google, sites com "cadeado" usam 2% mais dados para transferir a mesma informação se as condições forem iguais. Se a compressão de dados for desativada em nome da segurança, o consumo tende a aumentar mais: dependendo da página, o consumo pode triplicar.

 

Outra atividade comum ligada à segurança são as atualizações de software, como o sistema operacional, navegadores e antivírus, além de todos os aplicativos do celular. Tudo isso consome recursos da franquia de dados. Em uma residência com três ou quatro celulares e dois computadores, por exemplo, essas importantes atualizações de segurança podem rapidamente consumir uma quantia significativa da franquia, suficiente para poder assistir um episódio ou dois (dependendo da qualidade) no Netflix.

 

Evitar as atualizações não é uma boa opção nem mesmo para preservar a própria franquia. Ficar sem as atualizações deixa o computador vulnerável a infecções por vírus. A instalação de um vírus, por sua vez, pode ocasionar uso de dados, especialmente se o sistema for integrado a uma "rede zumbi" da praga digital. Isso vai acelerar o consumo da franquia.

 

Em outras palavras, parte da franquia contratada já está "morta" porque terá de ser usada para as manutenções periódicas dos programas.

 

Consumo de difícil controle
Com franquia de dados e potencial bloqueio do acesso, internautas brasileiros podem ainda ser vítimas de uma nova classe de "ataques de negação de serviço" em que o objetivo seja esgotar a franquia de dados para prejudicar o acesso à internet.

 

O objetivo usual de um ataque de negação de serviço é esgotar a capacidade da conexão e a rede volta ao normal assim que o ataque para. O fato de serem ataques com impacto momentâneo desencoraja esse tipo de atividade. Mas, com franquia de dados, o objetivo pode ser o consumo da franquia, com um efeito duradouro.

 

É difícil de imaginar um criminoso com motivação para realizar esses ataques hoje, mas também não é possível descartar a possibilidade.

 

Usuários vão ainda "pagar" pelos downloads de vírus ou códigos maliciosos embutidos em sites infectados e por recursos de segurança como a proteção em "nuvem" incluída no Windows 10 e outros produtos, bem como pelo envio de dados de telemetria (análise de uso) e diagnóstico (para conserto de erros). Embora esses dados não representem um consumo significativo, eles ilustram bem a dificuldade de se controlar o vai-e-vem de dados da rede.

 

Internet despreparada
A internet de hoje, para computadores, não foi pensada para um acesso com franquia. Os programas também não e não vai ser possível simplesmente adaptar tudo sem algum sacrifício.

 

A franquia universalizada pode ter um impacto no conteúdo da internet brasileira, mas isso é outra discussão.

 

Imaginar, porém, que alguém pode acabar desativando ou ignorando as atualizações em algum momento para evitar consumir aquele pouco de franquia que ainda resta, ou deixar para o fim do mês quando a franquia foi excedida e o acesso está mais lento, é uma ideia bastante preocupante para a segurança dos brasileiros.

 

Foto: Mario Alberto Magallanes/Freeimages

FONTE: g1