Excelente entrevista, lúcida,simples e atual…..

Empresário participou de debate na Rádio Jornal / Ashlley Melo/JC Imagem

CRISE

Eu nunca vi uma crise como essa e acho que poucas pessoas viram. Tenho uma longa experiência de crises no Brasil desde 1967, mas nada parecido. Eu vi inflação de 84% (ao mês) e agora de 10%, mas essa crise é uma tempestade perfeita, com todos os seus componentes. Temos inflação, desemprego e três trimestres de queda no PIB. E no campo político estamos totalmente desesperados. A falta de liderança e a corrupção estão dificultando a condução do País. Não é justo que a população brasileira pague um preço tão alto. Temos uma crise de competência, de entusiasmos exagerados e pessoas ocupando postos importantes sem a devida preparação. Não sei se vamos conseguir aguentar essa crise por mais dois anos.As pessoas perdem o emprego e têm dificuldade de se recolocar, porque há uma expectativa de continuidade da crise no próximo ano. 

BOLSA FAMÍLIA

Felizmente hoje temos programas de proteção social para a classe menos favorecida, mas isso não é tudo. Não pode ser um a ponte de salvação. Alguns programas sociais começaram desde o governo Fernando Henrique Cardoso e eu sou a favor de que se dê esse apoio às pessoas, mas momentaneamente. Depois tem que se dar oportunidade para que as pessoas se livrem desse programa. O Bolsa Família passou a ser uma indústria, deixando de ser um projeto social para ser um projeto político. 

MÁQUINA PÚBLICA

O governo pede aumento de imposto e quer cortar projetos sociais, mas não corta o custeio alucinadamente alto da máquina pública. Só vi discurso. O governo precisa cortar custos, reduzir o número de ministérios e acabar com essa mania de só cobrar imposto. Porque o imposto desmotiva as pessoas e os empresários. Quando um empresário não empreende e não investe ele está provocando desemprego e redução de receita.

EDUARDO CUNHA

É difícil pra mim opinar no campo político, porque esse não é o meu habitat. Mas a gente fica triste em ver um presidente da Câmara dos Deputados, que não tem condições. E a presidenta está passando por um momento de grande dificuldade, sem apoio do próprio partida, com uma briga interna de poder. É difícil governar assim. É preciso colocar ordem na casa, porque a presidenta foi eleita pelo povo para administrar o País. Muitos partidos estão atrapalhando a governabilidade e não estão demonstrando interesse de ajudar o Brasil. 

EMPRESARIADO

O empresariado está tonto e não sabe o que faz. Mesmo na época da Ditadura os empresários se reuniam e gritavam. Eu fui 3 anos da Associação Brasileira de Supermercados e a gente levantava discussões. Hoje é muito raro empresário contestar governo. Isso vem acontecendo há muitos anos. Existe um ou outro caso em especial. Ainda não se definiu a questão da liderança e do papel do empresariado. Nós estamos muito calados e acomodados. Eu acho que já cumpri o meu papel participando de entidades de classe nacionais e internacionais e hoje eu fico mais observando com muita tristeza. O brasileiro precisa de indignação. 

TRIBUTOS

O governo tem que esquecer esse negócio de aumento de impostos. A carga tributária já deu o que tinha de dar. Eu não entendo o ministro Levy porque a cada dez palavras ele diz dez são CPMF. Precisamos reduzir a máquina do Estado, o custeio, o desperdício e investir certo. Esse tem que ser o discurso de todos nós, do governo, dos políticos e dos empresários. A CPMF não deve ser nem temporária, porque o governo diz que é temporária, mas depois mantém. 

ARENA DA COPA

As obras para a Copa 2014 me surpreenderam para pior. Eu sou um otimista bem informado, porque eu avalio as coisas. Muito antes de começar a construção da Arena eu já dizia que não se precisava dela. Eu não sou tricolor, mas acreditava que com pequenas modificações no Arruda tinha resolvido o problema da Copa. Gastaram uma fortuna, fizeram um estádio gigante para receber jogos medíocres e não se tem mobilidade. Está lá um elefante branco que eu não sei pra onde vai. Não havia nenhuma necessidade, não rendeu nada, não trouxe nada para Pernambuco. Eu lamento e felizmente não fui pra nenhum jogo. Já as Olimpíadas no Rio vão ser boas para a cidade. Não sabemos se vai ficar alguma coisa para o País, esperamos que sim porque o Brasil precisa avançar na infraestrutura.

ESTÁDIO

Acho que não justifica bebida nos estádios. Existe uma pressão porque há companhias de bebida que patrocinam, mas não há lógica. Já há briga sem bebida. A razão é que o imposto é alto e o patrocínio das empresas de bebida também é alto. 

EDUCAÇÃO

Se investíssemos em educação estaríamos numa situação brilhante, porque é isso que poderá salvar o Brasil. Não adianta ter só projetos sociais sem criar estrutura para o desenvolvimento das pessoas nós não vamos para lugar nenhum. Se estivéssemos pensando realmente em educação estaríamos numa situação diferente. 

JOVENS

Nós temos o Instituto JCPM no Recife, em Salvador e no Ceará. Aqui no Recife há 7 anos, cuidando de jovens na faixa etária dos 16 aos 24 anos, principalmente das pessoas do entorno dos nossos empreendimentos. No Recife começamos com Brasília Teimosa e depois estendemos para o Pina. Isso tem sido uma alegria enorme, porque temos treinado muita gente e muitos jovens. Só no RioMar tem 1,2 mil jovens que saíram dessas comunidades e outros foram para outras empresas, alguns no polo de informática do Porto Digital. No geral, juntando os demais Estados já treinamos 9 mil pessoas, começando desde a construção até o varejo. Os empresários podem dar uma grande ajuda se investirem em treinamento para os jovens. 

PERSPECTIVAS

Não desistir, criar, trabalhar muito, ser austero nos gastos e intolerante com o desperdício, treinar sua equipe, ir pra guerra e pra luta, tratar bem o cliente, ter coragem e não pensar que tudo acontece de graça. Tem que trabalhar muito mesmo. Se fizer isso vai superar. Eu vou ter o privilégio de falar para um grupo de pequenos donos de supermercados que querem ouvir minha experiência. Eu vou contar a eles um pouco da nossa estratégia na época em que estava no setor, falando sobre tecnologia, pessoal e cliente. Tem que trabalhar. Não adianta pensar em ficar deitado em berço esplêndido como no hino nacional. Quem trabalhar vai vencer.

Fonte: NE10 – 13/12/2015

Fernando Cunha

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