Por Jamildo Melo, editor do Blog

A campanha eleitoral deste ano foi pródiga em falsas questões. Uma das principais girou em torno dos benefícios dos programas sociais e o suposto fim do Bolsa Família, usado como terrorismo eleitoral até não poder mais.

Pouca gente vai lembrar, mas a tentativa de jogar parte da população menos assistida contra os adversários vem de longe. No mesmo fim de semana em que Aécio Neves (PSDB) fazia um dos primeiros atos de sua pré-campanha, eclodiu a correria às agências da Caixa Econômica Federal com o boato do fim do Bolsa Família. Era uma espécie de aviso aos navegantes? Uma espécie de pré-teste da tese a ser esgrimida no ano eleitoral propriamente dito?

Já na eleição para valer, em ônibus e metrôs e até em ações de telemarketing, alardeava-se que Aécio Neves iria não só acabar com o programa como faria pior: congelaria os salários dos pobres e trabalhadores. Um “exterminador do futuro”, tal como Marina Silva foi apresentada no primeiro turno. Mesmo sendo o próprio Aécio autor de um projeto de lei que transforma o Bolsa Família em uma política de Estado e não de governo. Com a iniciativa, o seu objetivo seria transferir o programa do campo minado da disputa partidária para o das políticas públicas nacionais, um passo adiante, do ponto de vista da disputa eleitoral democrática, afinal os recursos públicos não pertencem a um partido. Sentindo o golpe, os tucanos antes giraram em círculos à procura de uma resposta e chegaram a repetir Lula e chamar o programa de bolsa esmola.

Um dos principais aliados do presidenciável Aécio Neves (PSDB) na região Nordeste, o prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM), chegou a criticar a estratégia petista de disseminar no eleitorado nordestino o “medo” de uma possível vitória do tucano. O neto do senador e governador baiano Antônio Carlos Magalhães (1927-2007) disse que o PT “quer tomar para si a condição de proprietário” do Nordeste. “Não vamos aceitar”, afirmou o prefeito, ao criticar o governador baiano Jaques Wagner (PT) por relativizar a importância do tema “corrupção” na disputa presidencial.

Se depender exclusivamente do PT, esse tema não sai da agenda política. A presidente Dilma teve mais que o dobro de votos de Aécio no Nordeste no 1º turno. Só perdeu para Marina Silva em Pernambuco. A candidata do PSB somou 48,05% enquanto Rousseff teve 44,22%. Com esse jogo, o poder de plantão não se deu ao trabalho de discutir outros temas, como o serviço público. Determinados extratos da sociedade, mais esclarecidos, perceberam que a capacidade de avançar estancou ou não é suficiente para suprir suas ambições. Isso ficou evidente nas manifestações de junho do ano passado, mas na campanha tocada pelo marketing não houve espaço para essa discussão.

No entanto, o que esteve por trás desta campanha do medo e do terror e por que é tão importante superar isto, para o bem do país? A resposta foi dada por Eduardo Campos e por isso o socialista incomodava tanto os antigos aliados. “Vemos as filhas do Bolsa Família transformarem-se nas mães do Bolsa Família”, alertou o socialista meses antes de sua morte trágica. Ele indagava: “Queremos vê-las transformando-se em avós do Bolsa Família?”. Dito de modo mais claro: o círculo da pobreza e da dependência não poderia atravessar gerações, sob pena de darmos razão ao Lula que clamava contra o “bolsa esmola” na época de FHC. O partido que prometera acabar com os votos de cabrestos nos grotões usa justamente o programa como cabresto dos eleitores mais pobres.

Muita gente boa não sabe, mas o Bolsa Família não nasceu com Lula, nem com FHC, mas por sugestão do Banco Mundial. FHC acatou a sugestão para dar uma resposta às esquerdas da época, mesmo sabendo que as coisas só se resolvem com iniciativas fortes do Estado nas esferas da educação e da saúde. Naquele momento, essa gente boa tinha fortes resistências ao que chamava de estratégia conservadora de combate à pobreza. O coro dos contentes somente emergiu depois, quando Lula ‘refundou o Brasil’, enterrou o Fome Zero em 2004, depois de um ano de fracasso, deu ‘um salto solto’ aplaudido pelos Chicos Buarques da vida e promoveu a unificação dos programas de transferência de renda de FHC (a “bolsa esmola”) no Bolsa Família. No esquema do Fome Zero, sob o amparo estatal, pequenos produtores locais forneceriam os alimentos para a mesa dos pobres. Virou escombros, sem nem mesmo servir de alicerce para o Bolsa Família. Antes, Lula fulminava o Bolsa Escola com o epíteto de “bolsa esmola”.

Astuto, Lula teve o mérito de converter com sucesso o tema do combate à pobreza em monopólio de um partido, no caso, o seu. Não é à toa que nas eleições, em qualquer época, a suposta supressão dos benefícios monetários passou a figurar como linha de ataque permanente do PT contra qualquer adversário. A expansão das transferências diretas de renda trouxe ainda para Lula uma outra virtude político-eleitoral. Com o impulso do consumo popular, de material de construção, eletrodomésticos e celulares, o ex-presidente teve a chance concreta de congelar a agenda de reformas na educação e na saúde públicas. Era esta fraude, até por ter convivido ao lado de Lula, que Eduardo Campos denunciava e tanto incomodava.

“O denominador comum de todas essas histórias é o cinismo, o deboche com que se mente e se engana o povo pobre e desinformado”, já descreveu o médico psicanalista carioca Francisco Daudt, com propriedade. Funcionou até aqui.

Fernando Cunha, Sje 

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