DIGA NÃO A VIOLÊNCIA!

Marta é uma moça muito bonita, de 30 anos, com os cabelos bem tratados e coloridos com esmero. Seu rosto, marcado por uma espécie de dor, sempre me impressionou.  Tem dois filhos. O mais velho nasceu quando Marta tinha 13 anos, no Nordeste. Seu marido, pai do menino, veio para o Rio quando ainda estava grávida. Alguns anos depois ela decidiu tentar a sorte no Rio e os dois se reencontraram. Marta ficou grávida do segundo filho e sempre  lutou muito para educar os dois filhos: o de 17 anos está cursando o ensino médio noturno e o de 13 anos está no ensino fundamental regular.

Marta é manicure, e mora numa favela, numa “comunidade”, como diz, numa das inúmeras favelas onde as Unidades de Polícia Pacificadora atuam. Sua casa foi construída pelo marido, com a sua ajuda. É uma casa com dois quartos, sala, cozinha e banheiro.

Semana passada agendei hora com Marta e fui recebida por seu sorriso largo de sempre. Notei, porém, o rosto mais crispado e aquela dor parecia ainda mais forte. Conversa vai, conversa vem, ela contou estar passando por um problema grave. Sem derramar uma só lágrima, mas com a voz muito triste, disse que tinha sido gravemente agredida pelo marido, na frente dos filhos e havia dado queixa do marido em uma delegacia da mulher. Ela está sendo amparada pela Lei Maria da Penha, tem ajuda de assistentes sociais e advogados além de outros recursos legais para protegê-la.

Segundo Marta, a dor maior vem das agressões verbais. Desde que começou a trabalhar, o marido a acusa de traição e a chama de puta, prostituta, vadia, entre outros xingamentos piores ainda. Marta pretende se mudar com os filhos com medo de que o marido cometa uma violência ainda maior, pois descobriu uma faca escondida por ele na cabeceira da cama do casal. Desde o evento que a levou à delegacia eles não compartilham mais o mesmo quarto. Os filhos estão do seu lado e querem que ela se separe. Marta diz que a violência acontece há muitos anos, mas agora ela resolveu dar um basta e procurou ajuda legal.

Fiquei imaginando o que teria sido de Marta se tudo isso tivesse ocorrido no passado quando não havia a lei Maria da Penha. Será que ela, cansada de ser agredida, teria  procurado o chefe do tráfico de drogas local para que ele a protegesse? Será que a proteção seria o julgamento sumário do marido e a sentença seria a morte?

Saí do salão impressionada com a luta dessa moça que sofre uma violência doméstica comum a tantos lares, não só nas camadas populares, mas também nas classes mais favorecidas. Pensei em Maria da Penha, agredida e queimada pelo marido, que empresta seu nome  a essa proteção social tão fundamental às mulheres vítimas de violência doméstica.

Pensei nas muitas Martas que foram amparadas por uma lei que só se constituiu porque houve luta e vontade de mudar uma situação inaceitável, injusta e  violenta.

O movimento feminista mudou o mundo, pois transformou ideias, valores e comportamentos. Quem hoje ousaria dizer que uma mulher que é agredida pelo marido deve ter feito algo errado? Quem defenderia que mulheres e homens devem ter salários diferentes para as mesmas funções? O mundo não mudou tanto, pois ainda existem Martas sofrendo violências físicas e verbais, mas o arcabouço jurídico e as ideias mudaram bastante, e a vida de muitas mulheres também, sem que tenha havido necessidade de grandes lideranças, de derramamento de sangue e de violência.

Fonte: Yvonne Maggie

Professora titular do Departamento de Antropologia Cultural do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. Autora dos livros "Guerra de orixá", editado pela Zahar e "Medo do feitiço", publicado pelo Arquivo Nacional. Coautora dos livros "Raça como retórica" e "Divisões perigosas", ambos pela Civilização Brasileira. Agraciada em 2008 com a Comenda da Ordem Nacional do Mérito Científico do Governo do Brasil. Pesquisadora do CNPq e bolsista Cientista do Nosso Estado pela Faperj.

Fernando Cunha, SJE – 23/02/2014

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